Júlia é perfeita em tudo, ao menos para mim

POSTADO POR: admin ter, 10 de dezembro de 2013

Logo que fechei a porta do
nosso apartamento, senti o toque dos seus dedos a tampar os meus olhos. Foi tão
mágico… Em minha mente, era como se me provasse todo o seu amor. Envolvido
por um abraço terno e gostoso, morno como o entardecer em tempo de verão,
pensei em dormir de tão feliz.
— Vamos, tire o casaco, está
molhado
— me disse.
Eu não precisei falar ou
fazer mais nada, ela encarregou-se de tudo. Levou-me até a poltrona ao lado da
vidraça e beijou-me, para depois, deixar que sua cabeça tombasse em meu ombro,
como quem precisava de mim.
Sua mão esquerda massageava o
meu coração, igual quem cuidava dele para que eu pudesse me sentir melhor. E eu
podia ouvir o vento. E eu podia ouvir o meu coração sanado do mesmo jeito que o
de um pássaro a voar.
Foram os cinco minutos mais
longos dos quais eu me lembro. O mundo parou. Não importava o que havia nas
ruas, ou mesmo nas cadeias, tudo o que interessava se fazia presente entre
aqueles pequenos espaços entre nós e completava nossas almas. Dava para sentir
a energia.
— Podemos viver aqui, se você
quiser
— me disse docemente e sorriu.
Ela não me deixou responder.
Pouco tempo depois, eu me encontrava extenuado. Afagava as costas dela, como
quem desenhava um caminho para o paraíso.
Por um lado, tê-la era tudo
que eu precisava. Porém, eu não me sentia confortável, quando passeávamos no
shopping e ninguém entendia com quem eu falava. Era duro demais para mim e eu
não queria seguir com as coisas assim.
— Tem certeza de que deseja
continuar?
— falou me olhando manso.
— Sim — respondi.
Simplesmente baixou seus
olhos. Subi seu queixo com minha mão direita e dei um sorriso quando nos
encaramos.
— Eu mesmo o carreguei — e
logo que abri a boca eu o mostrei a ela.
— Sabe que se vier comigo
será uma alma penada como eu, não sabe?
— pronunciou como quem me dava mais uma
oportunidade de desistir.
Assenti com a cabeça e olhei
profundamente em seus pálidos olhos azuis. Com os dedos em seu rosto, deixei um
toque em seu lábio inferior. Queria dizer a ela, que desde que se foi, por
conta do aneurisma, a minha vida acabou.
Mas eu não disse, porque
mesmo depois de morta, ela nunca deixou de me ver e me querer. Tudo que eu não
precisava fazer era magoá-la. Não queria que pensasse que não estava feliz,
afinal de contas, mesmo que casado com uma morta, eu tinha a ela e ela a mim.
Foi quando colei o cano do meu
trinta-e-oito sob o meu maxilar. Inspirei profundamente e me preparei… Ao
soltar o ar, disparei. Explodiu tudo! Eu me lembro de estar a olhar para ela e
ouvir uma grande explosão.
Ela me deu a mão, juntou meus
miolos e sorriu.
— Venha, meu amor, preciso
cuidar de você
— me disse.
Eu não sabia o que fazer e
com quais palavras responder. Para falar a verdade, eu estava apavorado.
Ela, mais uma vez, tomou
conta de tudo e levou-me, ainda sujo de sangue, esquisito e atordoado, para
dentro do túnel. A Júlia, sempre foi perfeita em tudo. Eu sabia que podia
confiar nela.
Pela lei dos mortos, chegamos
ao único lugar onde podíamos ficar, era o vale dos suicidas. Via muita lava,
chamas e criaturas aladas por todos os lugares. Eu podia sentir o cheiro de
enxofre e entendia muito bem onde estava. Estávamos cercados por enforcados e
suicidas de todos os tipos.
Lá pelas tantas, quando meus
pés já doíam de tanto andar, ela disse:
— Chegamos, é aqui que vamos
ficar.
Mesmo que na penumbra, pude
ver uma pequena caverna com alguns poucos móveis e utensílios em seu interior.
Tentei disfarçar meu sentimento de surpresa. Eu a olhei e ela me engolia com
suas meninas, fitando-me ao avesso.
— Podemos fazer amor?
perguntei.
Eu não tinha nada melhor para
dizer, e novamente, não sabia o que fazer. Então, como de costume, ela
encarregou-se de tudo. E o mais engraçado, é que quando eu a penetrei, eu me
senti vivo, mais vivo do que nunca.
E só o que posso dizer, é que
viva ou morta, a Júlia sempre foi perfeita, ao menos para mim.

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